segunda-feira, 10 de novembro de 2008

Heróis em tempo de Guerra


Estávamos em guerra. Devia ser uma guerra valente, porque estávamos a viver numa comunidade em grandes cavernas no subsolo da cidade. Na caverna onde eu vivia, éramos mais de duzentos. O ambiente era escuro e húmido e nalgumas paredes havia iluminação de cor amarelada, o que trazia ao de cimo a cor de tijolo das paredes. Eu dormia numa pequena cova mais elevada junto a uma das paredes. A minha parte era escura, e avistava-se a saída da caverna que ficava mais elevada e trazia alguma luz do dia.
Nas cavernas havia caminhos secretos e túneis que alguns utilizavam para fugir ou para entrar e sair sem serem notados. Eu não conhecia nenhum desses caminhos.
Quando a guerra terminou, saímos do subsolo e voltámos a reconstruir as nossas vidas. Eu fui viver com os meus pais numa casa que eles alugaram ali para os lados do Saldanha em Lisboa. Um dos meus irmão também. A casa era num piso térreo. Era um apartamento de estilo antigo e pé alto. E estava algo degradado, não sei se pela guerra, se pelos anos. Calhou-me o melhor quarto. Era um quarto enorme com televisão, cama bastante alta, e junto à cama uma banheira das antigas. Imaginei-me imediatamente a tomar banho nessa banheira, a apanhar com luz de todas as quatro enormes janelas do quarto, e a ver televisão. Especialmente depois de viver em cavernas, isto ia-me saber muito bem. O meu irmão tinha um quarto mais pequeno, mas ele não se importava. O dos meus pais, era noutra ponta da casa. Felizmente a casa era mais ou menos no mesmo sítio onde eu vivia antigamente, o que veio mesmo a calhar, porque assim não precisava de mudar o dístico de estacionamento da Emel. O que seria bastante aborrecido dada a burocracia envolvida. Também me lembrei que provavelmente o meu carro já não estaria estacionado no mesmo sítio em que estava antes da guerra estalar. Mas se estivesse, não seria multado. Tinha o dístico.
Fui passear pela rua, ver as ruínas na cidade. E voltei ao grande átrio, que outrora tinha sido um hospital, e que dava acesso às cavernas onde há pouco tempo tinha estado a viver. O átrio do hospital estava completamente liso e danificado. As janelas grandes que se erguiam no alto deixavam entrar luz através dos vidros partidos, e iluminavam toda a cor branca e verde das paredes. No meio do átrio encontrei um rolo de fita adesiva das que se usam em pinturas. Agarrei-a.
Soube nesse momento que não era apenas uma fita de pintura normal. Esta concedia desejos. Qualquer desejo. E eu desejei imediatamente um super poder. Queria ser super rápido ou super forte. Julgo que fiquei com uma mistura dos dois poderes. Cada um deles a metade da força.
Houve alguém que nesse momento me estava a espreitar. Era uma criança, mas não consegui perceber bem quem era. Deixei a fita no mesmo lugar. Não me competia mudá-la de sítio. Comecei imediatamente a tirar partido da minha nova capacidade. Andei para aqui e para ali sempre bastante rápido, com o vento a bater-me na cara.
Como em todas as coisas boas, há sempre mais alguém a querer ou a evitar que os outros possam ter. Neste caso: o Governo Português. Ora parece que alguém foi indicar ao senhor Presidente da República, Cavaco Silva, que andava por aí uma fonte de super poderes. O que levantou o interesse do Governo nesta nova tecnologia que podia perfeitamente ser usada caso a guerra voltasse. Ou pelo menos evitar que caísse nas mãos de inimigos.
Muito rapidamente tive grupos do exército à minha procura. E tive de correr, bem rápido. Felizmente eu conseguia, bem rápido. Acabei por me esconder numa estalagem bem rasca no meio de Lisboa, numa zona que eu não conheço. Era uma estalagem antiga, mas com ares de já ter sido bonita e nova em tempos. Muito bem decorada com ornamentos nos tectos e com uma bela escadaria de tapete vermelho (sujo). Aluguei um quarto junto do responsável que estava de pé atrás da bancada do lado direito. O quarto era num piso alto, provavelmente o último, e tinha vista para a grande casa onde o Cavaco Silva estava protegido pelo exército. Ficava essa no cimo de um monte com arame farpado à volta. Eu via tudo isto de uma janela pequena do último andar da estalagem. Como não tinha dinheiro aproveitei para fazer alguns biscates na estalagem. Os trabalhadores não queriam mudar uma lâmpada no tecto da entrada, porque já alguém tinha morrido a tentar fazer o arranjo. Senti que tinha sido culpa minha, por não o ter feito mais cedo. Poderia ter poupado a vida a alguém. Era uma lâmpada difícil de mudar porque estava bem no alto, e num canto. Ficava-se em desequilíbrio no cimo do escadote. Eu subi, mudei a lâmpada, e desequilibrei-me, vi a minha vida toda a passar num flash rápido, e no último momento dei um pulo do escadote para que a queda fosse terminar no tapete vermelho (sujo), em vez dos degraus onde outrora o trabalhador francês tinha caído. Caí no tapete, levantei-me e a restante equipa de trabalhadores (franceses) enquanto fumavam cigarros enrolados e me olhavam, falaram entre dentes a resmungar do meu acto. Não gostava particularmente de mim, pensavam que eu era americano: por causa da pose heróica. Aproveitei ainda nesse dia para consertar umas escadas velhas, que já tinha ouvido falar antigamente através de um colega de trabalho que já lá tinha estado.
Depois dos biscates terminados, voltei ao átrio do hospital velho. Estava sinistramente vazio. Voltei a aproximar-me da fita, porque queria mais experimentar pedir mais um poder, para poder voar, e mais facilmente fugir ao exército. Não sabia se a fita me poderia conceder vários desejos. Mas não perdia nada em experimentar.
Quando agarrei a fita e pedi o desejo, apareceu um militar de metralhadora a ordenar-me que ficasse quieto. Continuei agarrado à fita mas o desejo demorava um pouco a tornar-se realidade, até que me deram um pontapé na mão para me afastar do objecto. O militar agarrou a fita, pediu um poder e ficou super forte. Duas vezes mais forte do que eu. Ele percebeu imediatamente isso, porque largou a arma, o capacete e o casaco. Tinha o cabelo grisalho e curto, e queixo enorme. Avizinha-se uma bela cena de pancadaria, onde ele, duas vezes mais forte do que eu, iria assegurar que eu levava duas vezes mais porrada.
A cena de pancada foi curta. Ele deu-me um pontapé, eu voei ao encontro de uma parede e fiquei quieto no chão. Nisto, o Cavaco Silva entra ao fundo a observar a cena. Preparando-se para autorizar que o gorila dele terminasse o tratamento. Comentou que não podia deixar que anormais como eu andassem por aí exibindo capacidades contra natura. Eu não comentei. Limitei a usar a minha capacidade anti natura e corri dali para fora. Eles certamente não esperavam que eu conseguisse fugir dali. E fugi por um túnel que apareceu a meio caminho da fuga, um dos caminhos secretos das cavernas. Este caminho foi dar a salas antigas, e depois à rua.
Da estalagem avistava a casa da presidência. Fui tentar resolver a questão pelas próprias mãos, e corri muito rapidamente até ao arame farpado. Estava também a planear a mesma coisa um grupo de ciganos que estavam sentados junto ao arame farpado. Era impossível de entrar na casa. Um dos ciganos rapidamente me avisou "Ei, está um atirador furtivo a apontar para ti, do cimo daquele prédio.". Olhei apenas para confirmar. Era verdade, e isto confirmava também que o Presidente estava à espera que eu ali passasse. Estava montada uma cilada. Consegui correr antes da bala bater no chão de relva onde eu estava. Fugi. E consegui voar. Voei para cima. O poder tinha sido descarregado da fita para mim. Estava montada a minha saída estratégica. Não voltei mais a Lisboa.

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