quarta-feira, 10 de fevereiro de 2010

Nesta ocasião eu morava num apartamento qualquer numa torre citadina. E quando me mudei para esse apartamento eu tinha pintado o exterior do prédio, na fachada em que a sala tinha janela. Eu morava num andar bem alto, e para as pinturas tinha sido necessário erguer andaimes para a pintura. No entanto eu já lá morava há um ano e nunca tinha tirado os andaimes.
Acontece que de vez em quando eu ia sentar-me no andaime, que ficava mesmo na janela da sala e punha-me a jogar playstation daí, embora virado para a rua. Não via ecrã nenhum, mas tinha o comando das mãos.
O meu cão um dia que estava a passear na rua viu-me lá em cima e subiu até mim pelas escadas do andaime. Como estava cansado, adormeci enquanto ele subia. Poucos minutos depois acordei com as típicas lambidelas caninas no rosto, e pensei imediatamente: "o cão não pode estar aqui, não é permitido.". Reprimi o acto do cão, mas como podia ser perigoso ele descer pelos andaimes (visto que é um cão), agarrei-o e a muito custo, mandei-o para dentro da sala, através da janela.
Depois fiquei uns segundos a olhar "lá para baixo", e pensei : "adormecer aqui não deve ser lá muito seguro, não devia jogar playstation aqui sentado".

Alguns dias depois, num dia bastante chuvoso, e estava a andar de carro pela vila onde os meus pais vivem. Tinha comigo um dos meus sobrinhos. Os vidros do carro estavam bastante embaciados e com a chuva não via praticamente nada. Eis que um sujeito aparece de entre os carros e lhe bato ligeiramente com o pára-brisas na cabeça. Obviamente que parei e pedi desculpas, mas ele estava mais interessado em me aplicar uma valente sova. Então pus o pé no acelerador e disparei dali para fora. Ele tinha uma pickup preta que muito rapidamente se colocou no meu encalçe. Tentei despistá-lo e fugi até à rua dos meus pais. Mas ele seguiu-me o caminho todo. Saí do carro e vi um tipo com cabelo descolorado e tatuagens coloridas nos braços à janela de um segundo andar. O tipo que eu tinha ligeiramente atropelado era parecido com este da janela, foi então que reparei que o atropelado era o actor Simon Pegg, que vendia churros e farturas ali perto. Aliás ele estava ainda com um barrete branco atado à cabeça.

O Simon ainda vinha com a vontade de me deixar ali bem esmurrado, mas para minha surpresa o tipo que estava à janela conhecia o meu pai e assegurou o Simon que eu era boa pessoa. Pedi mais uma vez desculpas pelo incidente e aparentemente tudo estava bem. Quando abri o porta bagagens do meu carro estava lá uma matrícula de carro agarrada a meio pára-choques. Não percebi o que era, visto que nem era meu. O Simon disse "trata de fazer com que isso desapareça, e não terás problemas comigo". Pareceu-me um negócio justo. Afinal de contas era só deixar aquilo num contentor de lixo qualquer.


Cada um seguiu seu caminho.

Passados alguns dias, numa situação em que estava a sair de um Hospital, a propósito de uma visita a alguém conhecido, num corredor do andar em que tinha ido fazer a visita, havia uma patamar para os elevadores. Dois Elevadores lado a lado, portas verdes dos anos oitenta, chão de mosaicos de cor avermelhada, e sem qualquer luz no tecto a iluminar essa zona.
Carreguei no botão para chamar o elevador. Esperei um momento a olhar para as portas. O ambiente era escuro, e a única luminosidade que havia vinha de um corredor próximo. O elevador que apareceu primeiro foi o da esquerda. Abri a porta e vejo lá dentro dois pneus, molas de suspensão e outras peças de carro. Muito rapidamente percebi que eram peças do meu carro, alguém o tinha desmantelado com um sadismo supremo. Vi que à porta dos elevadores já estavam outras peças espalhadas, reparei especialmente numa bateria de carro da marca "deWalt". Associei o acto imediatamente ao Simon. Tinha sido ele que tinha feito isto como vingança pelo atropelamento. Peguei numa das rodas que estava no elevador e arremessei com força para o chão, deixando-a a saltitar.

Subitamente havia cada vez mais peças espalhadas pelo chão. Vi um bilhete colado aos botões do elevador, era um desenho de uma criança, com o aspecto tosco e simples dos desenhos que eu fazia quando tinha 4 ou 5 anos. Reparei que tinha uma mensagem escrita a caneta, nas costas do desenho, escrita pelo Simon: "Pensavas que era só pedir desculpa e ficavas livre, pois fica sabendo que não levaste na tromba, mas vais pagar de uma maneira muito pior, com medo. Vais ter medo de tudo o que fizeres, sempre a pensar que eu vou estar por perto. Vais ter medo de abrir elevadores e portas." De facto estava a funcionar, fiquei aterrorizado. Só me lembrei das situações dos filmes em que as pessoas são aterrorizadas por um psycho qualquer, que só descansa quando morre. Continuei a ler: "Passei em tua casa, e vi o teu cão. Muito giro, especialmente quando o deixei a sangrar no chão como um porco." Aí parei de ler, e decidi que tinha de tratar do assunto tal como nos filmes. Tinha o coração a bater muito rapidamente e com um misto de muita tristeza e a sentir um mau karma.

Acordei: igualmente acelerado, com suores, com aquela sensação de "hoje até vou gostar de ir trabalhar".

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Evento de empresa




Tudo começou quando fui fazer um favor a um amigo meu que trabalha numa loja de instrumentos musicais. Fui substituí-lo durante uma horas enquanto ele tratava de assuntos da vida dele. Fiquei na secção das baterias. A loja estava razoavelmente populada de clientes, mas só um é que se dirigiu a mim. Trazia uma fender stratocaster branca e um pedal de efeitos, e procurava comprar um prato de bateria aonde ligar a guitarra. Tratava-se de uma opção completamente lógica, pelo que o deixei experimentar pratos à vontade para ele fazer um bom som de guitarra. Passado pouco tempo reapareceu o meu amigo e ficou a tomar conta da ocorrência.
Mas eu tinha onde estar: tinha um evento de empresa, daqueles onde se pode relaxar um pouco da semana de trabalho. Mas este tinha uma particularidade: era em Londres.
Fui para Londres, e à chegada, ao passar no controlo alfandegário. Era um controlo muito rudimentar. Parecia ser uma loja no centro da cidade, tipo agência de viagens, com duas mesas brancas onde dois agentes, um feminino, outro masculino, vistoriavam os documentos dos viajantes.
Apresentei o meu passaporte. Para meu espanto, não passava de uma folha em formato A4, dobrada em forma de panfleto, de cor amarela viva, e letras impressas a preto. Tinha os meus dados impressos, e vários carimbos pequenos com cores azul e vermelha.
A agente feminina, loira, de farda azul, examinou o meu passaporte. E claro está, havia uma irregularidade: o número do BI. Aparentemente o dígito de controlo não batia certo com o número de identificação, e mesmo o número de identificação esta com os algarismos desordenados como se alguma dislexia ali se tivesse passado.
Depois de lhe provar matematicamente que se ela ordenasse correctamente os número, o dígito de controlo bateria certo, então pude prosseguir viagem.

Passado algum tempo já me encontrava à beira rio, numa zona turística, onde se via uma igreja medieval, com o respectivo cemitério minúsculo, com pedras antigas e aspecto de ruínas. Desci umas escadas, que tinham uma carpete vermelha larga, em direcção ao rio. Estava acompanhado de um colega de trabalho. Ouvia-se muito bem o som da água do rio a bater na margem. Acontece que os ingleses tinha microfones a captar este som, e emitiam-no por colunas escondidas, de modo a criar um ambiente relaxado para os turistas.
Virámos à esquerda e fomos ter com os restantes colegas de trabalho. No entanto tratava-se de um evento de uma outra empresa onde eu já tinha trabalhado anteriormente. Cumprimentei os meus colegas, que não pareciam muito interessados em conversar comigo, visto já não ser colega deles. No entanto aproveitei e bebi um gin tónico, ou dois, e raspei-me dali para fora.

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Treino canino


Nós vivíamos numa zona litoral, com pinta de vila piscatória. As casas têm manchas de ferrugem na pintura exterior, a maior parte não tem mais do que um ou dois andares, e quase todas pintadas de branco sujo. Nos sítios onde não há casas construídas, há partes de terreno com arbustos baixos e algum entulho que já tem aspecto de ter sido despejado há alguns anos.
Tínhamos um problema nas mãos, que era o facto de querermos ir de férias, e precisarmos de um sítio para deixar o cão. O meu cão é um boxer, grande, e eléctrico tipo coelhinho da Duracell, significando isto que não o posso deixar em qualquer lado, correndo o risco de despesas. Mas como temos estado a investir no treino do animal já nos parecia mais acessível deixá-lo com alguém. Procurámos entre sítios e pessoas conhecidas, e o que na altura nos pareceu mais óbvio e seguro... era deixá-lo a viver num bar durante uma semana.
Fomos visitar o bar em questão. A entrada era num piso superior e não sendo grande tinha umas arcadas, com vista para um desses terrenos baldios. As portas eram de madeira escura e gasta da humidade do tempo, e abriam para dentro, onde se via um hall com um bengaleiro, paredes brancas, e tijoleira laranja no chão. Em frente desciam as escadas para o bar propriamente dito, onde se ajuntavam pouffs, sofás, mesas baixas, colunas cilíndricas de alto a baixo, e alguns espelhos espalhados pela sala. Parecia ser um bar que era muito estimado desde o fim dos anos oitenta. O Dono era um senhor muito simpático, algo gordito, na casa dos quarenta, e já careca, disfarçava-o rapando o cabelo bem curtinho.
Falámos sobre o assunto do cão: ele não estava muito seguro da ideia de ficar com o bicho durante uma semana, especialmente sendo este bastante "mexido". Assegurei-lhe que o bicho já estava mais calminho e obediente prontifiquei-me para fazer uma pequena demonstração. A demonstração consistiria em arremessar um objecto meu para o terreno que estava adjacente ao edifício do bar, e o cão iria procurar esse objecto e trazê-lo a mim.
Assim o fiz, atirei algo para o meio dos arbustos. O meu bicho muito rapidamente se dirigiu ao terreno cheirando tudo o que via. Passado alguns segundos encontrou o objectivo. Trouxe-o a mim e recompensei-o com comida.
O dono do bar não me pareceu muito impressionado. Achei que precisávamos de ensinar algo ao cão que lhe fosse útil. Daí que durante uns dias treinámos o animal para: fazer pizza! A pizza seria sempre a mesma, para não complicar. Ele só tinha de fazer massa, espalhar uns pedaços de queijo parmesão e completar com rúcula. O cão ficou bastante motivado com a actividade, tanto que até passou a usar um chapéu de cozinha.
Como é óbvio, o meu bicho arranjou lugar no bar, durante uma semana... a fazer pizzas.