terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Treino canino


Nós vivíamos numa zona litoral, com pinta de vila piscatória. As casas têm manchas de ferrugem na pintura exterior, a maior parte não tem mais do que um ou dois andares, e quase todas pintadas de branco sujo. Nos sítios onde não há casas construídas, há partes de terreno com arbustos baixos e algum entulho que já tem aspecto de ter sido despejado há alguns anos.
Tínhamos um problema nas mãos, que era o facto de querermos ir de férias, e precisarmos de um sítio para deixar o cão. O meu cão é um boxer, grande, e eléctrico tipo coelhinho da Duracell, significando isto que não o posso deixar em qualquer lado, correndo o risco de despesas. Mas como temos estado a investir no treino do animal já nos parecia mais acessível deixá-lo com alguém. Procurámos entre sítios e pessoas conhecidas, e o que na altura nos pareceu mais óbvio e seguro... era deixá-lo a viver num bar durante uma semana.
Fomos visitar o bar em questão. A entrada era num piso superior e não sendo grande tinha umas arcadas, com vista para um desses terrenos baldios. As portas eram de madeira escura e gasta da humidade do tempo, e abriam para dentro, onde se via um hall com um bengaleiro, paredes brancas, e tijoleira laranja no chão. Em frente desciam as escadas para o bar propriamente dito, onde se ajuntavam pouffs, sofás, mesas baixas, colunas cilíndricas de alto a baixo, e alguns espelhos espalhados pela sala. Parecia ser um bar que era muito estimado desde o fim dos anos oitenta. O Dono era um senhor muito simpático, algo gordito, na casa dos quarenta, e já careca, disfarçava-o rapando o cabelo bem curtinho.
Falámos sobre o assunto do cão: ele não estava muito seguro da ideia de ficar com o bicho durante uma semana, especialmente sendo este bastante "mexido". Assegurei-lhe que o bicho já estava mais calminho e obediente prontifiquei-me para fazer uma pequena demonstração. A demonstração consistiria em arremessar um objecto meu para o terreno que estava adjacente ao edifício do bar, e o cão iria procurar esse objecto e trazê-lo a mim.
Assim o fiz, atirei algo para o meio dos arbustos. O meu bicho muito rapidamente se dirigiu ao terreno cheirando tudo o que via. Passado alguns segundos encontrou o objectivo. Trouxe-o a mim e recompensei-o com comida.
O dono do bar não me pareceu muito impressionado. Achei que precisávamos de ensinar algo ao cão que lhe fosse útil. Daí que durante uns dias treinámos o animal para: fazer pizza! A pizza seria sempre a mesma, para não complicar. Ele só tinha de fazer massa, espalhar uns pedaços de queijo parmesão e completar com rúcula. O cão ficou bastante motivado com a actividade, tanto que até passou a usar um chapéu de cozinha.
Como é óbvio, o meu bicho arranjou lugar no bar, durante uma semana... a fazer pizzas.

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